Profissionais de Saúde e as TIC // eHealth Professionals (Altamiro da Costa Pereira)

Medicina, Informática Médica e a Decisão em Saúde 

Altamiro Costa Pereira é médico licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e doutorado pela Universidade de Dundee, Escócia. É atualmente Professor Catedrático da FMUP, diretor do Departamento de Ciências da Informação e da Decisão em Saúde (CIDES) e coordenador do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Sistemas de Informação em Saúde.

Para além dos títulos que possui e das funções que desempenha, é de facto uma das mais reconhecidas e prestigiadas personalidades na área dos Sistemas de Informação da Saúde. Quer pelo prestígio, adquirido na deriva do seu imenso contributo ao longo dos anos nestas áreas, quer pela frontalidade das suas posições, esta é uma entrevista urgente, uma entrevista que se impõe.

Qual a origem desta relação entre a medicina e os sistemas de informação na saúde?

A minha entrada para a Faculdade de Medicina ocorre em 1985, no início do meu internato de Pediatria, para o então designado Serviço de Higiene e Medicina Social, dirigido pelo Prof. Joaquim Maia. O Prof. Joaquim Maia possuía uma paixão pela estatística e pela informática – lembro-me de o professor passar as tardes a programar num pequeno computador Sinclair ZX Spectrum – e foi através dele que comprei o meu primeiro computador, um Apple Macintosh, onde fiz as primeiras experiências nestes domínios. Posteriormente, em 1990, fui para a Universidade de Dundee onde obtive o meu doutoramento, e é lá, ainda de uma forma incipiente, que tomo contacto com a realidade dos Emails e da Internet.

Quando regressei, em 1994, as coisas estavam praticamente como as tinha deixado e o único computador existente era ainda o EUROMAC, uma velha aquisição feita através de um projecto europeu em que eu participei antes do meu doutoramento na Escócia. Na realidade, havia apenas três máquinas no Serviço de Higiene: o velhinho computador que tinha adquirido em 1989, um 386, uma máquina de policopiar e um “bico de Bunsen” usado para aquecer o café. Nessa altura, ainda não se ensinava Bioestatística, não se ensinava informática médica…

Confrontado com esta situação, pensei ser importante acelerar estas áreas e uma das minhas primeiras iniciativas foi a organização de um curso de Estatística Médica, em fevereiro de 1995. Logo a seguir, em maio de 1995, foi feita a ligação da Faculdade à Internet, tendo também sido criadas as primeiras páginas da Faculdade na Internet que, segundo julgo saber, foram as segundas sobre Saúde em Portugal, após as páginas pioneiras do Hospital Amato Lusitano, em Castelo Branco. Em maio de 1996, organizei também o primeiro curso de Informática Médica, então com a designação de «Computadores, Internet e Medicina», cuja fundação teve origem já no Serviço de Biomatemática, ao qual eu tinha passado recentemente a integrar e dirigir. Ainda em 1996, surgiu um projeto exploratório com a China, uma parceria, enfim, sem grande sucesso mas acabando por se tornar o embrião de um projeto mais local, designadamente por trazer ao departamento os seus primeiros recursos humanos para a área da informática médica, sendo ainda dessa altura as primeiras aproximações aos SI nacionais de Saúde, através do IGIF Porto, com o Dr. Reis Abreu e o Dr. José Castanheira. Como exemplo desta aproximação, a minha primeira publicação visava a relação entre a influência da poluição atmosférica Magazine dos Sistemas de Informação e Saúde

com a entrada de crianças com crises de asma na Urgência Pediátrica do Hospital de São João. Um cruzamento entre a informação das entradas na Urgência e a informação sobre níveis de poluição permitiu estabelecer uma relação entre ambos: os picos das entradas na Urgência Pediátrica associadas com casos de asma aconteciam tipicamente dois dias depois dos picos registados sobre a poluição atmosférica na região do Porto.

(Excerto / eSaúde 03)

Seis perguntas a… // Six questions to… Rui Henriques

Rui Henriques é uma figura de referência na área dos Sistemas de Informação da Saúde em Portugal. Embora sempre ligado ao ”lado de lá” – às empresas de soluções e serviços de eSaúde – é uma voz experiente e muito respeitada na comunidade das TIC da Saúde em Portugal, dela fazendo parte integrante por conquista própria. Desde há vários anos Administrador da Glintt-HS, Rui Henriques é convidado neste número a responder às 6 perguntas do eSaúde.

Grande parte da sua vida profissional foi dedicada ao desenvolvimento e fornecimento de soluções informáticas para a área da saúde. Quais foram as principais mudanças sentidas nas instituições de saúde, nesta área do eHealth?

Foi um grande caminho de aprendizagem e de crescimento! Do Sistema de Saúde, das Instituições, dos profissionais e da indústria. No início dos anos 90 os SIs na Saúde eram insipientes, administrativos, pouco coerentes das próprias instituições. Não eram entendidos como estratégicos e tinham pouco impacto nos profissionais de saúde, começavam a cobrir os aspectos organizativos mais básicos. Não havia uma indústria de TICs para a Saúde em Portugal.

As Unidades de Saúde começavam naquela altura a ter quadros de informática, que não estavam ainda previstos nos “quadros de pessoal” dos hospitais públicos e começava a pensar-se em “serviços de informática”. Os sistemas clínicos eram experimentais, em ilhas por serviços ou departamentos, desintegrados do resto das soluções do hospital.

A realidade na Europa não era substancialmente diferente de Portugal. Tal como hoje, em alguns aspetos, manifestavamos até algum pioneirismo. Entrei neste sector com um projecto inovador na área do processamento de imagem médica e da teleRadiologia, um desenvolvimento “state of art”, da Universidade de Aveiro (no então Pólo de Aveiro do INESC). A telemedicina, tal como os restantes sistemas clínicos, era entendida como algo separado de tudo o resto – sistemas isolados que se pensavam para uma determinada função!

Os SIs eram entendidos de forma bem diferente no sector público ou privado, como, aliás o ainda era a própria prática e os objectivos. O que também hoje evoluiu muito. Hoje, considero que a situação é a inversa em quase tudo o que acima referi. Há, claro, muito ainda para fazer, mas estamos a anos-luz da situação de há 20 anos.

(Excerto / eSaúde 03)

esaude03

Editorial 03

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ESAÚDE 03

Com algum atraso mas com um novo grafismo está agora disponível o terceiro número do eSaúde.

Continuando a merecer as críticas e os contributos dos profissionais que se ocupam e se preocupam com a utilidade e a evolução dos Sistemas de Informação da Saúde, sentimos aumentar, a cada número, a nossa responsabilidade. Uma vez mais, fiéis ao compromisso inicial, foi no terreno e junto dos profissionais que colhemos os artigos que formam esta edição. O número de páginas aumentou de novo mas era impossível fazer de outra maneira, dada a qualidade e pertinência dos contributos que nos chegaram.

Nas rubricas regulares, tem destaque a experiência e as reflexões de um profissional de saúde de reconhecido mérito - o Professor Altamiro Costa Pereira, colocámos as “Seis perguntas a… Rui Henriques”, procurando dar a conhecer uma visão na perspetiva do mercado e abordamos o tema da Governança de Sistemas de Informação da Saúde, com o Professor Álvaro Rocha, na rúbrica “speakers corner”. Também de forma regular, continuamos a falar de instituições que contribuem na área dos sistemas de informação de saúde, dando neste número a voz ao Instituto Pedro Nunes que, de forma reconhecida e consistente, tem vindo, também nesta área, a afirmar a dinâmica do País e, em particular, da região de Coimbra.

No domínio dos tutoriais técnicos concluímos dois artigos que tinham sido iniciados anteriormente - o do p rotocolo DICOM (Hugo Bastos) e o segundo artigo sobre Business Intelligence (Hélder Quintela) - e abordamos a temática do HL7. E porque o eSaúde procura estar atento ao que vai acontecendo no terreno, apresentámos diversos casos de estudos, como é o caso das experiências de eHealth no País Basco, do novíssimo projeto de prescrição de medicamentos (PEM) da SPMS, do projeto UPIP sobre a integração das urgências pediátricas e ainda casos práticos de Gestão de Identidades e de Sistemas de Informação no controlo de gestão.

Mas porque o eSaúde não é apenas uma revista mas também uma forma de contribuir para que a temática das TIC esteja presente nos locais e momentos em que as grandes questões da Saúde são discutidas, daremos aqui notícias da comunicação “Sistemas de Informação, a Defesa do SNS e a Centralidade do cidadão” que apresentamos no final de setembro no 1º Congresso da Fundação SNS e dos desenvolvimentos da Associação Profissionais de Sistemas de Informação na Saúde.

Porque os tempos não vão fáceis, haja saúde e … eSaúde!

Os Editores